7 Atos
Kiki Rockwell - Syrena
Eu andava de cabeça baixa, corpo curvado e disposição dilacerada, carregar este corpo se tornou um peso, com tantos pensamentos que me fizeram pesar. A leveza de sua companhia e o balanço de seu corpo, que era como uma pena ao vento, se foi. Com o tempo as coisas foram se intensificando e na ausência de um prazer, um motivo, fui indo como inércia pela vida que passava. O tempo passava, passava, nada mudava, nada mudou.
Observei eternos ciclos da Lua, que se mantinha permanente no céu de Auzmen. Senti o calor de intermináveis ciclos do Sol, queimando contra minha pele violentamente, e ainda assim, ele permanecia intacto e imóvel no céu de Auren.
Oh, como gostaria dessa resiliência dos astros, que se mantinham intocáveis, permanentes. Minhas emoções eram como o mar, a calmaria que de repente era atingida pela agitação de uma tempestade.
Todos esses ciclos de minha vida, eu me apeguei em nosso amor, que me fez até hoje, sorrir. Agora, observava a beleza de uma flor que florescia no chão, enquanto me sentia sem força física para continuar. Me rendi à melancolia de não poder te tocar. Sinto falta de externalizar essa emoção, do cheiro acolhedor de seu pescoço, a companhia calorosa que outrora, esteve aqui.
Contemplar esse momento na solidão, parecia um tanto desolador, e em pensar na unidade de todos seres vivendo em uníssono, e possibilitando que tudo possa continuar seu ciclo harmonioso com começos e fins intermináveis de uma vida inexplicável, não me sinto mais parte disso. E quando tudo se esvai, nos despedimos dos que ficam, para que eles possam continuar semeando a contínua e interminável existência de tudo que nos rodeia.
Não me traz nenhum alento hoje perceber que minha solidão é mais profunda do que imaginava. Não é só de sua forma física que eu sinto falta, sinto falta de saber que existe alguém que possa trazer algo melhor para Alterya, do que você representa. De tantas pessoas que meu caminho cruzou, nunca enxerguei isso. Hoje minha tristeza é com o mundo. Eu não pertenço.
Ao longe, ouvi o farfalhar das folhas e o rosnar de um lobo, conforme se anunciava entremeando as folhas de um arbusto, conseguia avistar seus olhos vermelhos, fixos em sua presa. Ele avançava com tamanha ferocidade em se alimentar. Sem forças eu só aceitei que o universo havia anunciado meu fim. Aqui jaz Jaxi Kûara, viveu em esplendor os tempos dourados de sua vida, tentou resgatar a esperança dilacerada, até que seus olhos perdessem o brilho e seu corpo não tivesse mais vitalidade.
Nada podia fazer, meu corpo não poderia mais reagir, forças que existiam em um passado distante, haviam dissipado há muito tempo atrás. Entregue aos braços do desconhecido fim, o lobo avançou com toda força, seus dentes cravaram em meu pescoço e eu me deixava tomar pela dor excruciante que era sentir meu corpo ser dilacerado por esse lobo selvagem. Beba meu sangue, quebre meus ossos, pois a dor não era suficiente para que eu demonstrasse qualquer reação, haviam aflições tão profundas que a superfície nunca poderia tocar.
E aos poucos, conforme minha carcaça era despedaçada brutalmente e as folhas verdes eram pintadas de vermelho pelo meu sangue, eu me despedia de uma era que não poderia me oferecer nada mais.
Oh, Acará, a lembrança vívida de seu abraço agora me trazia conforto, meu último suspiro será ao seu lado e quando minhas partículas se juntarem ao cosmo, gostaria de sentir sua presença e seu calor eternamente. Viveria inúmeras vidas pela simples e grandiosa oportunidade de ter estado ao seu lado. Eu ouvia nossa melodia tocar no horizonte, eu sentia as vibrações percorrerem todo meu corpo. Eu estava aqui com você.
Assim me despeço, com a esperança de que dias melhores possam recair sobre todos sobreviventes de Alterya.
Enquanto o vácuo permanente me abraçava, que meu fim seja o testemunho de que nos confins de Alterya, algo novo estava nascendo neste exato momento.
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Kiki Rockwell - Syrena