Começar

A chuva caia. Seus dedos deslizavam, soltando-se dos meus com tamanha facilidade devido a água que encharcava nossos corpos. Observar ir-se embora era a única coisa que eu poderia fazer naquele momento. Seu corpo era puxado pelo solo, pela gravidade violenta e constante que a terra exerce sobre nós e com tamanha ferocidade, nos clama de volta para si.

A emoção que restava era a sua. Desde o instante em que lhe toquei em seu último momento e absorvi você, seus sentimentos e suas emoções, eu cessei de existir. E agora, em mim, só havia você. Como todas as incontáveis vezes ao longo da jornada de minha vida, o toque me fez lhe absorver, e em minha inexistência, eu existi através de você.

Eu observava em meu rosto o pesar dessa despedida, enquanto me enxergava através de seus olhos. Eu lhe demonstrava um sorriso de gratidão por ter compartilhado minha vida com você por todos esses ciclos.

Despedir-se de quem amamos se torna ainda mais doloroso quando nos enxergamos através desse outro prisma, quando o amar, se torna duplamente intenso e vívido, e quando sabíamos que antes do fim, não estávamos mais a sós. Contemplar com todas as certezas o que você sente, é precisar se despedir duas vezes, de mim, de você. E ao te observar caindo contra o solo, eu me observava e sentia me despedir de mim.

Intrínseco e entrelaçado, essa foi a primeira vez que eu senti a partida de quem amei profundamente. Meu apreço por você é eterno. Meu amor, imortal. Sua existência me trouxe a beleza do que é viver. E ao seu lado, eu soube o que é cuidado. Você será eternamente parte de mim.

Agora, ao observar a Lua por trás de minha máscara de raposa, lágrimas não declaradas ao mundo escorrem de meu rosto, com a lembrança do que um dia eu senti e nunca mais esquecerei. Quando naquele ciclo, sua despedida me trouxe uma melancolia permanente, eu precisei aprender a olhar para Alterya de outra forma. E nas sombras de Auzmen eu sigo me esgueirando. Ninguém mais me verá, ninguém mais me tocará.

Foi a partir daquele momento, que eu passei a me cobrir do mundo. Minha longa túnica com um capuz para me cobrir, minha máscara cobrindo meu rosto para me esconder, luvas que não permitem o toque nunca mais. Passei a viver em eterna introspecção, para que assim, eu possa ser somente eu e nunca mais esquecer como era ser você.

Todos Atos