Começar

Houve um tempo em que eu sofri tanto que eu queria tirar isso de dentro de mim, eu cortaria meus braços, não para me matar, eu não queria morrer, sabia como é glorioso poder viver. Eu fiz para que a dor física fosse maior do que a dor que estava me consumindo por dentro, nada mudou. Eu sigo com meu passado tirado de mim e que eu me privei.

Eu estava em Auzmen e sentava embaixo de uma árvore no topo de uma colina, eu observava a lua enquanto a brisa gelada da noite passava pelas poucas partes expostas de meu corpo. Observava a cidade de Menfis no horizonte, pessoas iam e vinham dela enquanto para mim, o tempo parecia paralisar.

Depois de tanto prolongar minha estadia ali, caminhei até a cidade. Fui até uma taverna que eu costumava passar o tempo, eu gostava de observar as pessoas e ver como elas viviam. Às vezes, algumas falavam comigo e compartilhavam suas histórias, umas mais inesperadas que as outras. Hoje eu não me sentia muito à vontade para conversar, então me encostei na parede em um canto escuro, fiquei observando pessoas trocarem afetos. Um sorriso se destacou em meu rosto, enquanto uma lágrima escorria pelas minhas bochechas e atravessava meus lábios contentes. Era admirável contemplar o amor, ver como o pertencimento poderia nos trazer algum afago e segurança. Uma memória vívida de você, Acará.

Haviam duas pessoas que a trilha de minha vida já havia cruzado, Nory e Trist. Estavam ali e não tinham me notado, o que era um alívio nesse meu grande momento de introspecção. O brilho em seus olhos quando se observavam, era notável, admirável. Havia uma devoção e um respeito mútuo que não podia ser rompido por nenhuma força. Eu, que nunca acreditei no destino ou na permanência de nada, hoje contemplava com tamanha incompreensão, como era uma certeza de que esse amor se estenderia pelos confins de Alterya. Talvez porque o meu amor ultrapassou as portas do tempo após sua partida.

Por muito tempo estive aqui pela metade, até entender que esse amor era eterno. Ele me acompanharia pelo resto de minha vida, e ele era a única coisa que me motivaria a seguir em frente e ser feliz, apreciando as pequenas belezas de Alterya. Ao te amar, mesmo sem você aqui, eu sabia que a melancolia, que era minha grande companheira, não era tão triste como imaginei. Nosso amor estava em nossas lembranças, que eu nunca esqueceria. E ao lembrar de você novamente, enquanto me encontro aqui só, eu sorrio, eu choro. Mas celebro cada dia de minha vida, vivendo o que não pudemos viver enquanto estava aqui.

Acará, você sempre será meu fôlego em meio a sufocante solidão, e enquanto te carrego comigo dentro de meu coração, seguirei sabendo de que os momentos felizes também serão tristes, pois não poderei mais compartilhar eles com você.

Todos Atos