Começar

Eu observava fixamente, meu corpo estava imóvel. Nenhum impulso existia para me mover, totalmente entorpecido. Eu via minha mulher ajoelhada no chão, tão desesperada como eu, perplexa. Um vácuo profundo tomava conta de meus sentidos. Ela chorava aos soluços, sem saber o que mais poderia fazer. Nada poderia ser feito, não agora, não mais.

Em seus braços ela segurava aquele corpo que agora, não tinha mais vida. Ele era... Ele foi... Não, eu não conseguia completer o pensamento, minha mente não me permitia terminar essa conclusão. Como se constatar isso o tornaria real. Em pensar que tornar isso real, a culpa cairia sobre mim, sobre tantas decisões equivocadas que eu fiz, não pensando nas consequências. Como eu poderia assumir essa responsabilidade aqui e agora? Diante desse acontecimento?

Minha mulher, Mari, virou e me encarou, naqueles olhos existiam uma mistura de amargura e raiva. Ela me julgava pelo que estava acontecendo, e com razão. Mas eu continuava inerte, a única parte de meu corpo que se movimentavam eram meus olhos, cheios de água. Lágrimas infinitas, que não eram possíveis de serem contidas. Derramavam, escorriam e iam de encontro ao solo, que eu mal sentia mais contra os meus pés.

As roupas de Mari estavam avermelhadas por conta de todo aquele sangue, ela não se importava, isso não era um problema agora. Mari de repente olhou para os céus, como um chamado de clemência, como se os céus pudessem disparar um trovão contra à terra. Mari gritou, gritou com tanta força que eu sentia a vibração de sua voz percorrer todo meu corpo, como um baque. Eu sentia a mesma dor, junto da culpa, ah! A culpa... minha nova companheira.

Não era a culpa de presenciar aquele momento sem poder fazer nada, era de ter ajudado os tiranos à conquistarem essa realidade discrepante que agora vivemos, era compactuar com seus ideais e crenças, eu contribui pela sua causa. Eles conquistaram esse reinado às custas do ódio contra aqueles que em seu lugar, nunca fariam metade dessas maldades, nunca permitiriam essa violência.

Nunca imaginaria que aquela simples escolha teria essa consequência. Nunca pensei e talvez fosse esse o problema, fui guiado pelo pensamento coletivo. Não pensei por mim mesmo, não avaliei todas bifurcações que minhas decisões poderiam ter. Pensei em mim, pela cabeça dos outros. Deixei de lado minha realidade e minha vida, até que era tarde demais recorrer à razão.

Uma vez ouvi que somos livres para evitar o esforço de pensar, para rejeitar a razão, mas não somos livres para evitar as penalidades do abismo que nos recusamos a ver. Pensar é uma escolha, infelizmente eu não a escolhi.

Nos braços de minha esposa estava nosso filho, ele já não era mais tão novo, mas sempre lembrarei dele como nossa criança. Sonhador e amável, ele nunca precisou escolher o ódio pelos outros para ser feliz consigo mesmo. Dotado de uma paz imensurável, levava a todos lados sua realização pessoal, contagiando as pessoas ao seu redor, sempre admirado por todos que o conhecia. Ele me pediu inúmeras vezes que não escolhesse uma causa cheia de ódio e intolerância, mas eu não via dessa forma, cego pelas minhas crenças impensadas. Por trás do meu amor ao meu filho, houve meu apoio ao ódio que eventualmente causaria esse momento em que me encontro, em seu corpo inanimado.

E ali ele estava sem culpa alguma, somente por ter escolhido ser quem era em sua totalidade. Por ter escolhido o amor, encontrou a violência. E por amar outro homem foi julgado pelos tiranos que não aceitavam sua realidade. Brutalizado pelas crenças infundadas de pessoas perdidas. Apoiadas pela ignorância pessoal que eu compactuava. E nesse abismo chamado consequências, eu me encontrava agora. Sem nunca mais poder voltar atrás.

Diante dessa perda, alguém que era parte de mim, me tornou quem sou hoje, eu percebo que de nada adianta amar, se por trás de um amor existe a incompreensão de ações tomadas por nós mesmos, que aos poucos formam uma torrente de ações equivocadas, apoiando uma causa que não acolhe a vida daqueles que mais queremos proteger.

Eu só lamento, lamento não ter ido em seu lugar.

Meu ódio se tornou minha ruína.