Começar

Ela acordava, e conforme seus olhos abriam lentamente em sua sonolência, o mundo voltava às suas cores. Seus sentidos ainda misturados com o que estava sonhando, confundiam sua distinção do que era real. Era como se o mundo estivesse sendo pintado de volta desse universo paralelo.

As engrenagens de sua mente pareciam começar a rodar, devagar, e novamente. Enquanto tudo começava a exigir sentido mais uma vez, as cores pareciam dissipar. Ela olhava fixamente para a porta entreaberta de seu quarto, o feixe de luz que transpassava o pequeno vão, trazia a luz de fora, enquanto as cores iam embora por essa fresta.

Como poeira ao vento, ia-se embora. Sentia que a emoção se transformava em um cansaço físico, queria continuar deitada, dormir, esquecer. Aquele lago verde de seus sonhos tentava preservar suas cores com tanta força, enquanto sua mente acordada não conseguia mais se lembrar, então o lago colorido se perdia no horizonte de sua mente exausta.

Quando percebia que não conseguiria mais lutar contra sua mente inquieta, tanto quanto não conseguia ir contra sua indisposição de levantar, escolheu só se deixar levar pela inércia de sua rotina. Levantou-se.

Seu dia começava arrastado, se empurrava e se forçava a viver o que, naquele momento, não via prazer. Conforme seu dia passava e sua cabeça se ocupava com outras coisas, contemplava pequenos momentos de prazer, totalmente momentâneos, era bom, era melhor assim.

Quando cantava e colocava pra fora uma voz reprimida dentro de si mesma. Quando criava e via tomar forma toda sua capacidade de fazer algo incrível. Quando lutava em tentar resgatar sonhos perdidos. Quando enxergava o mundo lá fora. Quando ouvia e assistia algo reflexivo, que tocava lá dentro de seu cerne. Quando se sentia parte de algo relevante. Quando observava seus olhos sonhadores.

Não sabia quando aquela euforia havia se perdido, não entendia como alguém cheia de vida poderia ter encontrado alguém vazia, sem propósito.

Sua mente inquieta, à deriva, estava lhe consumindo. Crises existenciais, um mundo incompreensível, pessoas que não se importavam. A vida seguia, sem fazer questão de acolher seu coração aflito. Que crueldade do universo era essa? De criar um ser tão cheio de emoções, quando nada disso fazia diferença para o constante e interminável ciclo da vida onde tudo nasce, morre. Nossa biologia nos impede de ir de encontro ao fim, e a vida consome outras vidas para que a vida possa continuar existindo.

Talvez a religião fosse a única saída, pelo menos para aqueles que conseguiam absorvê-la. O excesso de conhecimento lhe trouxe muito o que questionar, e o questionamento tirou a paz de sua mente. Gostaria de viver em eterna ignorância, voltar para a bolha que existia em sua adolescência. Sonha agora com nada mais do que… menos.