1 Ato
Foals – Spanish Sahara
O horror estava estampado em meu rosto enquanto eu observava as cortinas se fecharem, como um baque eu soube naquele instante, eu não poderia mais atuar, o que restou na escuridão daquele momento foi um pequeno feixe de luz, transpassando por uma pequena fresta, como os restos de uma esperança dilacerada dentro do meu coração.
Ele nunca passou, o horror, se estendeu pela trilha de minha vida, pelo resto de meus dias, essa história era um passado nunca mais tocado, enterrado a sete palmos.
De alguma forma, sinto que me enterrei junto naquele dia.
Levantar toda manhã se tornou um esforço emocional, eu tinha força física para levantar 10 caixas, ao menos se essas caixas guardassem a força do meu viver, eu não estaria rastejando em terras inférteis, onde nada mais pode crescer.
Os dias são os mesmos, vivendo de uma obrigação racional onde não há dor, existe a consciência do que deve ser feito, para conquistarmos um bem comum, mas a faísca nunca foi embora, aquela fresta nunca desapareceu, eu gostaria de poder ultrapassar essa cortina.
As vezes essa emoção me toma como uma explosão, me leva para outra realidade, onde havia o prazer, a emoção. Onde a vida era algo memorável, quando eu sonhava. Mas essa explosão se dissipa com um desespero angustiante, ofegante eu choro, em meu rosto escorrem lágrimas de verdades que não devem ser contadas, nunca mais vividas.
Sinto essas amarras pressionando contra minha pele, me sufocando.
Quando eu me olho no espelho eu enxergo o reflexo de uma carcaça que nada mais leva dentro de si, meus olhos perderam o brilho, minha existência perdeu a razão, derrotado.
Eu me lembro de quando me sentia invencível, nada poderia me parar, predestinado a ser feliz, como um tiro, de encontro ao seu alvo e cumprindo seu propósito.
Abaixo minha cabeça mas minha imagem está marcada na minha mente, eu não consigo mais esquecer e aceitar que fui convencido de que isso era o melhor para mim, como me deixei acreditar que alguém saberia o que é o melhor para mim? Estou na beira do abismo, sufocado pelas minhas próprias convicções.
Me lembro de um retrato que está imortalizado em minha mente, eu sorria com tamanha exasperação que era contagiante, a vida exalava de meu ser e influenciava todos ao meu redor. Agora totalmente apagada pelo dever.
Isso, agora, não é vida, é a monotonia de um propósito que não me pertence, se todos pelo menos contemplássemos minimamente que nossa individualidade não precisa estar em uníssono com as demais, viveríamos uma vida melhor, em harmonia.
Eu não estou contribuindo para o aperfeiçoamento da humanidade, eu sou meramente um servo dos incontáveis pequenos tiranos. A maldade nunca foi uma grande entidade, mas a torrente incessante de pequenos erros incontestáveis, até que eles transformaram-se em monstros.
Eu sempre estive errado, nunca parei de atuar, atuei as histórias de mil pessoas, simplesmente por ter deixado de estar no palco que era a minha vida.
Agora essa cortina se abre novamente, não importa o quanto me machuque, tampouco quem está no caminho, estarei correndo incessavelmente até que eu possa me encontrar, e colidir.
Eu sou invencível.
Pra você que encontrou essa carta, que escrevi aos prantos, predestinado mas com muito medo de viver quem sou em minha totalidade, se eu vencer ou se eu falhar, eu só gostaria de compartilhar o que enxerguei quando fechei meus olhos essa manhã: Eu mesmo.
Saiba que sua vida é sua e de seu direito viver, ela pertence à mais ninguém.
Levante-se e viva.
Thiene Amari