O Cervo

  • Com música
  • 4 Capítulos
  • 26/03/2019

Capítulo 1 - Descoberta

play

Não fazia muito tempo que eu havia encontrado o aconchego do meu lar, em meio às sombras da floresta. Era uma cabana simples, eu não precisava de muito para ser feliz. Os acontecimentos de minha vida tem sido sufocantes, eu precisava de nada mais do que eu mesmo nesse momento, a paz de estar comigo. Por isso eu me esforcei o máximo que podia para construir meu lar, onde agora eu sinto que pertenço. Pertencer, gosto dessa palavra.

Nunca me esqueço daquele dia, era primavera, o cheiro das folhas, flores e das árvores me acalmavam, preenchiam meu ser, os pássaros cantavam e em meio à suas melodias eu despertava alegre.

Fazia um tempo que eu podia ouvir um caminhar diferente, não era o mesmo barulho que eu estava acostumado, mas seja qual criatura fosse, não estava pronta para se apresentar. Ao final da tarde, o sol já estava distante no horizonte e poucos raios de luz passavam entre as árvores. Foi quando o vi pela primeira vez, a silhueta de um cervo, majestoso e imponente contra à luz, parecia um ser de outro reino, prestes a tomar conta do mundo.

Nos observamos por um longo momento, então ele se virou com calma e seguiu seu caminho, me perguntava o que era aquela sensação de reconhecimento, como se fossemos velhos amigos.

As sombras da noite tomaram conta de todo lugar e eu estava em minha cabana, sai dela para apreciar a noite e acender uma fogueira, dava para enxergar a lua entre as folhas das árvores. Ao ouvir o som do farfalhar no horizonte eu já reconhecia sua forma de caminhar, ele havia voltado. Me espantei quando vi uma silhueta de um homem nu e com chifres, ele estava parado a poucos metros de mim. Não sabia se disparava sem destino ou permanecia parado, mas de alguma forma eu sentia que ele não me oferecia perigo.

Ele se aproximou lentamente e próximo da luz da fogueira eu consegui ver seu rosto, que era uma mistura de humano com animal, ele me lembrava o cervo que havia visto mais cedo e dentro de mim, eu sabia que eram a mesmo ser. O Homem Cervo se sentou em um tronco na frente da fogueira, estávamos quase de frente um para o outro. Então ele me contou uma história, que eu nunca imaginei que já reconhecia.

O Homem Cervo me contou sobre seu grande amor, perdido no horizonte de sua vida, um amor que lhe foi tirado há um longo tempo atrás, quando uma antiga magia tinha lhe transformado no que era hoje. Ele foi na verdade, uma mulher, antes de se tornar um animal da floresta.

E eu já a conhecia intimamente, eu nunca a esqueci e descobrir que ela estava exatamente onde encontrei meu lar, só me fazia pensar em como nos encontraríamos pelo resto de nossas vidas, não importava como. Meus olhos lacrimejavam, lágrimas escorriam de meu rosto enquanto eu o ouvia falar sobre tudo aquilo que eu já sabia dentro de mim, sobre todos aqueles momentos que eu nunca havia esquecido.

Ele terminou dizendo que não poderia ficar, que não nos pertencíamos mais, não daquela forma, mas que me observaria e me protegeria pelo resto de sua vida. Nos abraçamos, um longo abraço. E então o Homem Cervo partiu para as sombras da noite, de volta para seu reino animal.

Até hoje nos amamos à distância, e eu sempre me pergunto quando poderei abraçá-lo novamente, na esperança de lhe beijar.

Loreena McKennitt – The Mummers' Dance

When in the springtime of the year
Quando chega no ano o tempo da primavera

When the trees are crowned with leaves
Quando às arvores estão coroadas de folhas

When the ash and oak and the birch and yew
Quando o freixo, e o carvalho e o teixo

Are dressed in ribbons fair
Estão vestidos com fitas justas


When owls call the breathless moon
Quando corujas chamam pela lua sem fôlego

In the blue veil of the night
No véu azul da noite

The shadows of the trees appear
As sombras das árvores aparecem

Amidst the lantern light
Em meio à luz da laterna


Refrão:

We’ve been rambling all the night
Nós tivemos divagando por toda noite

And some time of this day
E algum tempo do dia de hoje

Now returning back again
Agora estamos retornando

We bring a garland gay
Levando uma linda guirlanda


Who will go down to those shady groves
Quem descerá para aqueles bosques sombrios

And summon the shadows there
E invocar as sombras por lá

And tie a ribbon on those sheltering arms
E amarrar uma fita naqueles braços reconfortantes

In the springtime of the year
Na primaveira do ano


The songs of birds seem to fill the wood
As canções dos pássaros parecem preencher a madeira

That when the fiddler plays
Que quando o violinista toca

All their voices can be heard
Todas suas vozes podem ser escutadas

Long past their woodland days
Muito além de seus dias de floresta


-Refrão-


And so they linked their hands and danced
E então eles deram as mãos e dançaram

Round in circles and in rows
Rodando em círculos e linhas

And so the journey of the night descends
E então a jornada da noite se finaliza

When all the shades are gone
Quando todas as sombras se foram


A garland gay we bring you here
Uma linda guirlanda nós trazemos aqui

And at your door we stand
E em sua porta paramos

It is a sprout well budded out
É um broto bem brotado

The work of our Lord’s hand
O trabalho pelas mãos de nosso Deus


-Refrão (2x)-

Capítulo 2 - Libertação

play

Eu acordei ofegante, algum barulho conhecido havia me despertado, a primeira coisa que avistei foi um vulto parado na porta de minha cabana, eu não conseguia dicernir sua forma, eu estava assustado e com medo. Ele começou a se aproximar e conforme minha vista se desembassava daquele abrupto despertar, eu conseguia enxergar a forma conhecida que tanto desejei estar junto.

Meu antigo amor, agora na forma do já conhecido Homem Cervo, que me fez companhia por tantos dias e noites nessa floresta desde que eu a havia chamado de lar. Ele caminhava ao meu encontro, eu nada fazia, só queria ser dele, pertencer à ele e sentir aquela emoção que renasceu no primeiro dia em que nos reencontramos, naquela fogueira nas penumbras da noite.

Ele ajoelhou na cama e eu ainda estava deitado apoiado em meus cotovelos por conta do susto, sua mão deslizou para trás de meu pescoço e seus lábios lentamente encontraram os meus, desejei tanto aquilo que eu não queria parar mais. Nossa sincronia não parecia perfeita, mas eu me sentia em sintonia com seu coração, enquanto o meu, totalmente acelerado, pedia por mais.

Eu não conseguia acreditar que você esteve aqui presente esse tempo todo, mas tão distante, era surreal pensar que esse momento poderia estar acontecendo agora, quando eu já não tinha mais esperanças, quando eu já tinha te aceitado como um companheiro da floresta.

Me sentia extasiado enquanto nossos corpos se entrelaçavam, enquanto meus lábios deslizavam em seu pescoço, totalmente entregue à esse momento, eu queria nada mais do que ser seu nessa noite. Nosso prazer era evidente, mesmo que nenhum contato sexual tivesse acontecido. Seu cheiro era uma mistura de minhas lembranças com um toque de algo maravilhosamente novo. Queria estar imerso em você, conhecer cada parte de seu novo corpo, de seus majestosos chifres até seus pés, me sentia reinado por você, totalmente vulnerável e entregue aos seus desejos.

A noite se estendeu em nosso longo prazer, nenhuma palavra foi dita, mas eu compreendia todas suas intenções nos movimentos de seu corpo e na forma de seu toque. Como sempre você estava despido, não precisava de roupas pois não pertencia mais aos caprichos da humanidade, você vivia outra realidade. E até o fim eu permaneci com minha cueca, nossas mãos acariciaram cada parte de nossos corpos sem receio de nos explorarmos.

A partir daquela noite eu quis viver todos os momentos que fossem possíveis ao seu lado, você me mostrou que a forma em que nos apreciavamos, transcendia a compreensão. Não era possível colocar em palavras a mágica que era estarmos juntos. Entendi que o ápice de meu prazer não precisava de começos e fins, os meios contemplavam meu ser, preenchiam minha alma e me levavam para outro mundo. Muito mais prazeroso que minha devota necessidade de compreensão, herdada da minha vida humana.

Você é o ser mais maravilhoso que eu poderia ter conhecido na vida e em nossa ausência, você evoluiu em sua nova forma, apreciando o mundo em um novo espectro. Podendo agora me mostrar que de nada eu sabia, até esse momento, para agora apreciar a vida com novos olhos.

Nada mais quero, além de poder reinar ao seu lado, enquanto a vida nos permitir.

Laurel - Blue Blood

Blow it up
Exploda-o

Let the horses run
Deixe os cavalos correrem

I used to kill for fun
Eu costumava matar por diversão

We’re filthy rich
Nós somos podres de rico

Sitting on the tail end of love
Sentados no fim da cauda do amor

You woke me up
Você me acordou

For your blue blood
Para seu sangue azul

Made me come undone
Me fez desmoronar

Can’t believe you’ve been here the whole time
Não acredito que você esteve aqui o tempo todo


Ponte:

Too nice, to pass you by
Bom demais, para deixar você passar

I can’t believe, you been here the whole time
Não acredito, você esteve aqui o tempo todo


Refrão:

You made me feel again
Você me fez sentir de novamente

Made me dance circles
Me faz dançar círculos

Round the pieces of your heart
Em volta dos pedaços de seu coração

You made me feel again
Você me fez sentir novamente

After the last time
Depois da ultima vez

Didn’t think that I could love
Não achei que eu poderia amar


Living by the sea
Vivendo à beira do mar

No one could set me free
Ninguém poderia me libertar

Before you came to me
Antes de você vir para mim

I was in the pretty darkness
Eu estava em uma bela escuridão

Praying for the end
Rezando para o fim


You’re so sugar sweet
Você é tão doce

So easy to make you fall
Tão facil faze-lo cair

Hell for leather hell for sure
Depressa de mais com toda certeza

Always adore and endure I will love you
Sempre apreciando e aceitando eu te amarei

-Ponte-

-Refrão 2x-

Capítulo 3 - Desapego

play

Eu estava sentado na varanda de minha cabana, apreciando minha existência, há muito tempo eu me sentia em paz comigo mesmo, não existia sensação melhor na vida. Eu ouvia cada pequeno som no horizonte, de pequenos a grandes seres que me faziam companhia.

De repente um som mais urgente surgiu, me assustei e observei um pequeno cervo correndo. Mas não, não era você, era um somente um animal sem sua mágica, ou sua maldição, como preferia assumir pra si mesmo. Uma melancolia sempre tomava conta de mim quando algo me lembrava de você, uma longa saudade. Já faziam alguns meses que você havia desaparecido dos arredores, também me lembro de quando eu ainda tentava te encontrar, preocupado de que algo poderia ter lhe acontecido. E não me esqueço de suas pegadas, que encontrei próximo do riacho, eu sabia que eram suas.

Com o tempo, deixei de tentar te encontrar. Você não queria ser encontrado. Não por mim, pelo menos.

Nunca foi uma dor te deixar partir, sempre aceitei sua liberdade e não poderia exigir que sempre ao meu lado você estivesse. Mas uma parte de mim, queria te abraçar. Outra parte, queria ouvir que também sentia falta de minha companhia. O desapego é uma companhia complicada e traiçoeira.

A preocupação se foi, junto de você. Eu sabia que você não precisava estar comigo para ser feliz. Assim como eu estou em paz sozinho. Só me restou saudades e um aperto no peito de um longo desejo de poder te apreciar, escutar o tom de sua voz e sentir seu toque sobre minha pele.

Sinto como se sua presença irá me acompanhar pelo resto de minha vida, nunca o esquecerei e terei infinitos pensamentos onde um fragmento de nossos momentos se destacarão em minha memória. Você é um companheiro distante, acariciando minhas lembranças com um afago imensurável.

E as vezes me pego pensando tudo isso, como se fosse um relato para ti. Como se eu escrevesse uma carta que nunca seria lida. Esperando que você me escutasse. Um desabafo. Uma esperança. Um desejo de te sentir por perto. As vezes tento pensar em você com força, pra que onde estiver, possa me sentir. E termino esses pensamentos desejando que você esteja bem, onde quer que você tenha ido. Esperando que em meio a todas suas inseguranças, você se encontre.

Fico feliz por ter te reencontrado e eternamente agradecido por você ter permitido que nós acontecêssemos novamente, tenha uma vida tão majestosa quanto você é, meu querido Homem Cervo.

Halsey - Haunting

Intro (2x):

Keep on haunting
Continue assombrando

Keep on haunting me
Continue me assombrando


I was as pure as a river
Eu era pura como um rio

But now I think I’m possessed
Mas agora eu acho que estou possuída

You put a fever inside me
Você colocou uma febre dentro de mim

And I’ve been cold since you left
E eu estive fria desde que você se foi

I’ve got a boyfriend now and he’s made of gold
Eu tenho um namorado e ele é feito de ouro

And you’ve got your own mistakes in a bed at home
E você tem seus próprios erros em uma cama em casa

I’m hoping you could save me now, but you break and fold
Eu tenho esperado que você pudesse me salvar agora, mas você é um louco.

You’ve got a fire inside, but your heart’s so cold
Você tem uma chama interior, mas seu coração é tão frio.


Pré-Refrão:

Cause I’ve done some things that I can’t speak
Porque eu fiz algumas coisas das quais não posso falar

And I’ve tried to wash you away, but you just won’t leave
E tenho tentado te enxugar para longe, mas você simplesmente não se vai

So won’t you take a breath and dive in deep?
Então porque você não respira e mergulha fundo?

Cause I came here so you’d come for me
Porque eu vim aqui para você vir até mim


I’m begging you to keep on haunting (3x)
Eu estou implorando pra você continuar assombrando

I know you’re gonna keep on haunting me
Eu estou implorando pra você continuar me assombrando


We walk as tall as the skyline
Nós caminhamos tão altos quanto o horizonte

And we have roots like the trees
E nós temos raízes como as árvores

But then your eyes had to wander
Mas então seus olhos precisaram vagar

Cause they weren’t looking at me
Porque eles não estavam olhando para mim

You weren’t looking for me
Você não estava procurando por mim

-Pré-Refrão-

-Refrão-

-Pré-Refrão-

-Refrão-

Capítulo 4 - A Lebre

play

O dia que antes estava ensolarado, agora se escondia por detrás das núvens negras, carregadas da tempestade que estava caindo sobre a terra. Eu sai de minha cabana para poder apreciar a chuva, sentir a água escorrendo sobre meu corpo, como se pudessem lavar tudo de mal que poderia me acometer.

Eu me deitei na grama sentindo a chuva sobre meu rosto e enquanto eu divagava sobre meus pensamentos a chuva cessava, restando apenas uma leve garoa. Em meio às árvores eu podia avistar parte de um arco-íris que se formava no céu. Eu pensava em como a vida era maravilhosamente misteriosa, cheia de coisas que nós não conseguimos desvendar.

Apoiei minhas mãos no chão para me sentar e quando olhei para frente avistei uma figura curiosa, parecia um humano coberto por folhas coloridas, seus olhos eram pintados em uma das folhas e eles me encaravam fixamente. Ele se movia de forma repentina, como um pássaro mexendo sua cabeça para me olhar.

Então ele começou a falar e uma das folhas abaixo de seus olhos pintados se mexia com o ar de suas palavras “Ora ora, o que temos aqui? Um ser curioso, não? Um pouco perdido, bastante sentimental… Você tem saudades não tem?”. Eu pensei em responder mas quando comecei a abrir a boca ele continuou “Sim, você tem, nós sabemos, não precisa dizer. Oh meu querido, espero que me perdoe, algumas coisas estão destinadas a acontecer e você é uma delas.”. Ele levantou seus braços que com tantas folhas pareciam mais asas e os estendeu para os lados, com um movimento rápido ele os juntou como se fosse bater uma palma. No momento em que ambos se encontraram eu pisquei e me senti zonzo, um formigamento percorreu por todo o meu corpo, as folhas coloridas que o encobriam agora começaram a cair no chão, minha visão começou a ficar turva e tudo ficou escuro.

Eu acordei com um chamado distante, não era meu nome que chamavam. Meus olhos abriram aos poucos e eu pude enxergar o Homem Cervo segurando meus ombros no chão. Ele parecia me olhar diferente, de uma forma curiosa. Quando o respondi ele teve um subito olhar de compreensão, era uma mistura de medo e alívio. Então eu fui passar a mão em meus cabelos e senti grandes orelhas na minha cabeça. Ele me disse “Querida Mulher Lebre, preciso te contar uma história” e me pediu para nos sentarmos em troncos próximos dali. Estranhamente eu não me sentia desesperado, eu não me importava, era de certa forma um alívio.

E novamente na frente de uma fogueira o Homem Cervo me contou uma história, mas dessa vez eu não a conhecia. Ele me contou sobre um antigo conto da floresta, esse conto falava sobre o Cervo e a Lebre. Ambos enfeitiçados por seres desconhecidos, que estavam destinados a reinar sobre as árvores trazendo harmonia para esse lugar. Eles cuidavam da floresta em suas formas animais durante o dia e para celebrar sua antiga vida humana, toda noite eles se transformavam em híbridos para estarem juntos, nunca esquecendo do que já foram. Nos abraçamos enquanto uma lágrima escorria do rosto de cada um, selando o nosso reinado e celebrando nossa existência.

Phildel - The Stag vs. The Hare

-Instrumental-